terça-feira, 21 de março de 2017

A LIÇÃO DO PINTO



O amigo é um simples trabalhador brasileiro, assalariado e sofrido lutando para se aposentar? Está se sentindo mais apertado que um pinto no ovo? Então, esqueça a cagada do PATO e aprenda a LIÇÃO DO PINTO. Um belo poema do genial PATATIVA DO ASSARÉ!

Lição do pinto
(Patativa do Assaré)

(Versos recitados pelo autor em um comício em favor da anistia)

Vamos meu irmão,
A grande lição
Vamos aprender,
É belo o instinto
Do pequeno pinto
Antes de nascer.

O pinto dentro do ovo
Está ensinando ao povo
Que é preciso trabalhar,
Bate o bico, bate o bico
Bate o bico tico-tico
Pra poder se libertar.

Vamos minha gente,
Vamos para frente
Arrastando a cruz
Atrás da verdade,
Da fraternidade
Que pregou Jesus.

O pinto prisioneiro
Pra sair do cativeiro
Vive bastante a lutar,
Bate o bico, bate o bico,
Bate o bico tico-tico
Pra poder se libertar.

Se direito temos,
Todos nós queremos
Liberdade e paz,
No direito humano
Não existe engano,
Todos são iguais.

O pinto dentro do ovo
Aspirando um mundo novo
Não deixa de beliscar
Bate o bico, bate o bico,
Bate o bico tico-tico
Pra poder se libertar.
__


Poema publicado no livro Ispinho e Fulô, de Patativa do Assaré (1988).


segunda-feira, 20 de março de 2017

O REFORMADOR DA NATUREZA


Ilustração de LEBLANC

A Reforma da Natureza

Américo Pisca-pisca tinha o hábito de botar defeito em todas as coisas. O mundo para ele estava errado e a natureza só fazia tolices.
- Tolices, Américo?
- Pois então?!... Aqui neste pomar você tem uma prova disso. Lá está aquela jabuticabeira enorme sustentando frutas pequeninas, e mais adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule de uma planta rasteira. Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem que ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas - punha as jabuticabas na aboboreira e as abóboras na jabuticabeira. Não acha que eu tenho razão?
E assim discorrendo, Américo provou que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo.
- Mas o melhor - conclui ele - é não pensar nisso e tirar uma soneca à sombra dessas árvores, não acha?
E Américo Pisca-pisca, pisca-piscando que não acabava mais, estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira.
Dormiu. Dormiu e sonhou. Sonhou com o mundo novo, inteirinho, reformado, reformado pelas suas mãos. Que beleza!
De repente, porém, no melhor do sonho, plaf!, uma jabuticaba cai do galho bem em cima do seu nariz.
Américo despertou de um pulo. Piscou, piscou. Meditou sobre o caso e afinal reconheceu que o mundo não estava tão malfeito como ele dizia. Ele foi para casa refletindo:
- Que espiga!... Pois não é que se o mundo tivesse sido reformado por mim a primeira vítima teria sido eu mesmo? Eu, Américo Pisca-pisca, morto pela abóbora por mim posta no lugar da jabuticaba? Hum!... Deixemo-nos de reformas. Fique tudo como está que está tudo muito bom.


A Reforma da Natureza, Monteiro Lobato


* * *

Vovó já dizia: - Quem com muitas pedras bole, uma lhe cai na cabeça.
Isso me fez lembrar de um certo REFORMADOR...

Adaptação de uma caricatura de Paharo

segunda-feira, 13 de março de 2017

13 de março

Acervo: Museu da República

DATA DE NASCIMENTO 
DE ANTÔNIO CONSELHEIRO


Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido popularmente como Antônio Conselheiro, foi um beato, líder religioso e social brasileiro. Nasceu em Quixeramobim (Ceará) em 13 de março de 1830 e faleceu em Canudos (Bahia) em 22 de setembro de 1897.

Embora perseguido pelas autoridades republicanas, Antônio Conselheiro peregrinava pelo sertão do Nordeste (marcado pela seca, fome miséria), levando mensagens religiosas e conselhos sociais para as populações carentes. Conseguiu uma grande quantidade de seguidores, sendo que muitos o consideravam santo. 


Essa data é celebrada anualmente em Quixeramobim-CE, sua cidade natal, através de ampla programação envolvendo escolas e a comunidade em geral. O SESC Quixeramobim, um dos principais articuladores do Conselheiro Vivo, realiza palestras, exposições, concursos envolvendo as escolas e outras atividades.

Única fotografia de Antônio Vicente Mendes Maciel quando vivo.


Professor Aleiton Fonseca, escritor baiano que participou da 
Semana do Conselheiro Vivo, e sua esposa Rosana, em Quixeramobim.


Reunião da AQUILETRAS - Academia de Letras, Artes e Ciências
de Quixeramobim-CE


Poeta JoãoMelchíades Ferreira da Silva
ex-combatente de Canudos e autor de um folheto
sobre a guerra.


RESUMO DA PALESTRA SOBRE A GUERRA 

DE CANUDOS NA LITERATURA DE CORDEL 


A VISÃO DO EX-COMBATENTE JOÃO MELCHÍADES FERREIRA DA SILVA, O CANTOR DA BORBOREMA.

Palestra proferida em Quixeramobim-CE, no dia 10/03
por Arievaldo Vianna e Stélio Torquato.
Participação especial do escritor Aleilton Fonseca
Mediador: Bruno Paulino




Distinto público, nós vamos conhecer agora a incrível saga de um dos patriarcas da Literatura de Cordel. Neto de um beato discípulo do Padre Ibiapina, foi raptado por ciganos aos 7 anos de idade, na terrível seca de 1877. Ingressou no Exército em 1888 e combateu na Guerra de Canudos. Segundo o pesquisador baiano José Calazans, é autor de um dos primeiros folhetos escritos sobre a Guerra de Canudos e publicado em 1904. Como poeta popular é o criador do Valente Zé Garcia, romance fartamente elogiado por Câmara Cascudo em Vaqueiros e Cantadores. Personagem do Romance da Pedra do Reino de Ariano Suassuna e autor de uma versão do Pavão Misterioso... Com vocês João Melchíades Ferreira da Silva, O Cantor da Borborema.


O sertanejo é antes de tudo um forte, diz a frase clássica de Euclides da Cunha. Essa máxima pode ser atribuída tanto aos conselheiristas que lutaram em defesa do Arraial de Canudos como dos soldados dos batalhões nordestinos que se integraram ao exército republicano. O soldado nordestino, por conhecer melhor a região e a índole dos seguidores de Antônio Conselheiro foi o elemento responsável pelo equilíbrio da luta. Citemos como exemplo a tomada das trincheiras do rio Cocorobó, em junho de 1897, na qual se destacou o poeta João Melchíades Ferreira da Silva, promovido a sargento por atos de reconhecida bravura durante aquela refrega.
A função do verdadeiro pesquisador é percorrer mares nunca dantes navegados. É garimpar em terrenos desconhecidos, tirar proveito do que já foi colhido sem descuidar-se de acrescentar novidades ao assunto. O pesquisador José Calazans, ao escrever o estudo “CANUDOS NA LITERATURA DE CORDEL” bebeu em fontes que não haviam sido pesquisadas pelo o autor de ‘Os Sertões’ nem por outros estudiosos da vida de Antônio Conselheiro. Aliás, antes dele Sílvio Romero já havia recolhido no seio da musa popular quadrinhas como estas:

Do céu veio uma luz
Que Jesus Cristo mandou
Sant'Antonio Aparecido
Dos castigos nos livrou.

Quem ouvir e não aprender
Quem souber e não ensinar
No dia do juízo
A sua alma penará”.

Conforme José Calazans, “Os versos, que lembram o responso de Sant'Antonio, eram, sem dúvida alguma, os primeiros de uma dilatada série de composições referentes ao Bom Jesus Conselheiro e ao povoado de Canudos, onde o místico cearense iria se fixar em 1893, já desfrutando de grande prestígio no seio da comunidade sertaneja. A produção rimada sobre o “messias” cearense pode ser apontada, em nossos dias, como das maiores da nossa poética popular.”

Essa tosca produção poética dos seguidores de Antônio Conselheiro não passou despercebida ao escritor Euclides da Cunha, que a ela se refere em sua obra magna, o livro OS SERTÕES:  “(...) no mais pobre dos saques que registra a história, onde foram despojos imagens mutiladas e rosários de côcos, o que mais acirrava a cobiça dos vitoriosos eram as cartas, quaisquer escritos e, principalmente os desgraciosos versos encontrados. Pobres papeis, em que a ortografia bárbara corria parelhas com os mais ingênuos absurdos e a escrita irregular e feia parecia fotografar o pensamento torturado, eles, resumiam a psicologia da luta. Valiam tudo porque nada valiam”. E numa outra passagem, mais adiante, conclui desta maneira: “Os rudes poetas rimando-lhe [do Conselheiro] os desvarios em quadras incolores, sem a espontaneidade forte dos improvisos sertanejos, deixaram bem vivos documentos nos versos disparatados que deletreamos pensando, como Renan, que há, rude e eloquente, a segunda Bíblia do gênero humano, nesse gaguejar do povo”

Na opinião de Calasans, o autor de “Os Sertões” sentiu a importância que os conselheiristas davam às criações da ira anônima, usadas como armas de combate na guerra de vida e morte da jagunçada contra as forças poderosas da República. Dir-se-ia que versejar ajuda a combater. Os conselheiristas, enfrentando dificuldades sem conta, não abandonaram as musas nas horas difíceis e dramáticas da peleja suicida.
E conclui o eminente pesquisador baiano: “Vem da própria gente do Conselheiro a primeira contribuição ao hinário canudense.”

Além dos poetas anônimos, seguidores de Conselheiro, tivemos também um militar paraibano engajado no Exército Republicano que escreveu e publicou uma versão rimada da Guerra de Canudos. Esse poeta foi contemporâneo de Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima e Chagas Batista e pode ser considerado um dos pilares do nosso romanceiro popular.
Nosso desafio agora é falar um pouco desse poeta que foi combatente e testemunha ocular da queda de Canudos. Trata-se do paraibano de Bananeiras João Melchíades Ferreira da Silva, o “Cantor da Borborema”, nascido em 1869 e falecido em 1933. Em suma, um poeta, um sertanejo e acima de tudo um forte.  
Num folheto escrito após a guerra e publicado em 1904, após ser reformado como Sargento do Exército Brasileiro, Melchíades registrou versos como estes descrevendo a fuga atropelada do General Tamarindo, chefe interino da Terceira Expedição, após a morte do “corta-cabeças” General Moreira César:

“Escapa, escapa, soldado
Quem tiver perna que corra
Quem quiser ficar que fique
Quem quiser morrer que morra,
Há de viver duas vezes
Quem sair desta gangorra.”

João Melchíades Ferreira, neto do beato Antônio Simão, discípulo fiel do Padre Ibiapina, sentou praça ainda na Monarquia e com o advento da República foi convocado a combater em Canudos e posteriormente no Acre. Seus descendentes guardam manuscritos de sua esposa Senhorinha onde o poeta descreve os horrores da guerra, que assistiu de perto, ao contrário de Euclides da Cunha, que jamais esteve na linha de frente de combate.  Segundo dona Senhorinha, Melchíades voltou meio surdo e traumatizado com a crueldade dos combates. Chorava quando lembrava das mães carbonizadas com os filhinhos no colo... Vejamos, a seguir, trechos do poema OS HOMENS DA CORDILHEIRA, onde o poeta descreve o seu avô materno, o beato Antônio Simão, seguidor do Padre Ibiapina:

OS HOMENS DA CORDILHEIRA (Fragmentos) – De cópia pertencente ao acervo FUNDOS VILLA-LOBOS: – Páginas 19 a 21

Tu vês aquela capela
Do Olho D’água de Fora
Bem na testa da montanha
Que Manoel da Silva mora?  
Dá uma história bonita
Que hás de saber agora.

Ali morava um beato
De nome Antônio Simão
Que vivia em penitência
Igual a um ermitão
Porque Padre Ibiapina
Deu-lhe esta obrigação.

Era proibido falar
No dia de sexta-feira,
Jejuava quarta e sexta,
Depois a quaresma inteira
Ensinava a doutrina
Ao povo da Cordilheira.

Trajava um manto azul
Camisola de algodão
E não usava chapéu
Só vivia de oração,
Às quatro da madrugada
Já estava em devoção.

Ensinou muita leitura
A homem, mulher e menino
Estudou para ser padre
Depois mudou o destino
Foi cumprir a penitência
Que lhe deu Ibiapina.

Fez esta capela em nome
Da Virgem da Conceição
Aonde ensinava a ler
E pregava a religião
Aqui recebi das letras
Minha primeira lição.

Num rancho junto a capela
Nosso beato vivia
Somente uma filha louca
Lhe fazendo companhia
Porém o Manoel da Silva
Do mestre não se esquecia.

Foi de Manoel da Silva
Sogro e seu professor
Esta lembrança o Silva
Conserva como penhor
Eu que sou neto e discípulo
Também tenho o mesmo amor.

Em julho de noventa e oito
Já nosso mestre sofria,
Quando apontou para o sol
Somente a mão se estendia
Às quatorze horas da tarde
Era a hora em que morria.

Então neste cemitério
Foi o mestre sepultado
Ficou Manoel da Silva
Da capela encarregado
Fez outra capela nova
Prédio mais acrescentado.

(...)

Observem como o beato ANTÔNIO SIMÃO, avô do poeta João Melchíades, parecia como o beato ANTÔNIO VICENTE MENDES MACIEL, O CONSELHEIRO DE CANUDOS. Ambos foram influenciados pelas prédicas do virtuoso Padre Ibiapina e trajavam-se de maneira semelhante.

Entretanto, a visão de JOÃO MELCHÍADES sobre a Guerra de Canudos não poderia ser outra. Ele era militar, membro do Exército Brasileiro e ex-combatente de Canudos. É natural que assumisse a defesa da República, contra a ideologia pregada e praticada por Conselheiro e seus adeptos. Diferentemente de Euclides da Cunha, ele se recusa a enxergar algum mérito naquele grupo de valentes sertanejos que se insurgiu (e venceu, em algumas ocasiões) o Exército brasileiro. Certamente a propaganda do Governo Republicano para justificar o terrível genocídio praticado em Canudos calou mais alto na memória do poeta militar. Eis alguns trechos do poema, possivelmente o primeiro escrito sobre a tragédia que abalou os sertões da Bahia:

A GUERRA DE CANUDOS*
João Melchíades Ferreira da Silva

No ano noventa e seis
o Exército brasileiro
Achou-se então comandado
Pelo general guerreiro
De nome Arthur Oscar
Contra um chefe cangaceiro.

Ergueu-se contra a República
O bandido mais cruel
Iludindo um grande povo
Com a doutrina infiel
Seu nome era Antônio
Vicente Mendes Maciel.

De alpercatas, um cajado
Armado de valentia
Seu pensamento era o crime
Outra coisa não queria
Agradou-se de Canudos
Que é sertão da Bahia.

E para iludir ao povo
Ignorante do sertão
Inventou fazer milagres
Dizia em seu sermão
Que virava a água em leite
Convertia pedra em pão.

Criou-se logo em Canudos
Um batalhão quadrilheiro
Para exercitar os crimes
Desse chefe canganceiro
Então lhe deram tres nomes
De Bom Jesus Conselheiro.

(...)

Um dos momentos mais brilhantes da narrativa, onde Melchíades se vê forçado a reconhecer a bravura dos conselheiristas, trata-se justamente do momento da fuga desesperada do General Tamarindo:

No Angico, Tamarindo
Terminou sua partida
Foi varado de uma bala
Dizendo: " - Pela ferida,
Dou quatro contos de réis
A quem salvar minha vida!"

Senhor Major Cunha Matos
Tome conta da brigada
Sustenta o fogo de costas
Com a mesma retirada
E não me deixe morrer
Nas mãos dessa jagunçada.

Escapa, escapa soldado,
Quem tiver perna que corra
Quem quiser ficar que fique
Quem quiser morrer que morra
Há de nascer duas vezes
Quem sair desta gangorra.

* A íntegra do poema pode ser encontrada na Antologia da Literatura de Cordel, de Sebastião Nunes Batista, publicada em 1977 pela Fundação José Augusto, de Natal-RN. Acreditamos que o mesmo tenha sido publicado na Popular Editora, de Chagas Batista, depois que Melchíades foi reformado do Exército e passou a se dedicar ao cordel e à cantoria.

OUTRA VISÃO SOBRE O CONSELHEIRO

Recomendamos também a leitura da obra 'A HISTÓRIA DE ANTONIO CONSELHEIRO', do poeta Geraldo Amâncio, uma obra-prima que narra magistralmente a Saga de Canudos, escrito mais de 100 anos após a publicação do folheto de João Melchíades. Lançamento da Editora IMEPH, com ilustrações do artista plástico Kazane, a obra saiu em edição bem cuidada, impressa em papel de boa qualidade com capa e miolo coloridos. A visão de Geraldo Amâncio é totalmente oposta a de João Melchíades. Uma prova de que o cordel evoluiu não apenas na linguagem, mas também na visão crítica dos fatos que compõem a história.

A HISTÓRIA DE ANTONIO CONSELHEIRO
(Geraldo Amancio)

Conselheiro foi um homem
De espírito combativo.
Obstinado e valente,
Decidido e combativo.
Com tanta sabedoria
Conselheiro merecia
Por mil anos ficar vivo.

Do homem cresce o valor
Quando a história compara.
O Brasil tem a mania
De enaltecer Che Guevara
Talvez por ser estrangeiro.
Nosso Antonio Conselheiro
Foi uma jóia mais rara.

(...)

Montou primeiro um comércio
Para comprar e vender.
No magistério ensinava
Ler, contar e escrever.
E no foro trabalhava,
De toda forma buscava
Meios pra sobreviver.

Em qualquer trabalho tinha
Bravura e muita coragem.
Porém, Euclides da Cunha
Denegrindo a sua imagem
De uma maneira mesquinha
Diz n"Os Sertões que ele tinha
Tendência pra vadiagem.

(...)

Com o padre Ibiapina
Muitas lições aprendeu.
Esse sim, amou os pobres,
Do que tinha ofereceu.
Angariou donativos...
"É melhor dar pão aos vivos
Do que chorar quem morreu".

Antonio tornou-se arauto
Dos sem pátria, dos sem nome.
Sabia ouvir o sussurro
Da multidão que não come.
Uniu sua mágoa a eles,
Porque também era um deles
Conhecia a dor da fome.


(...)

Conselheiro interpretava
A Bíblia à sua maneira.
Não obedecia a bispo,
Nem a padre, nem à freira.
Se ainda existisse a mão
Da tal Santa Inquisição
Seu destino era a fogueira.

Com isso, logo alguns padres
Mostraram-se intolerantes
Dizendo que as leis da Terra
Tinham de ser como antes:
Que o cobre se desse ao nobre,
Tinha que haver rico e pobre,
Os mandados e os mandantes.

Naqueles sertões desertos,
De esquisitos carrascais,
Multidões embevecidas
Ouviram sermões de paz
Do maior dos conselheiros.
Isso para os fazendeiros
Era incômodo demais.

sábado, 4 de março de 2017

99 anos sem LEANDRO


Ilustração: Arievaldo Vianna

99 ANOS SEM LEANDRO, 
O PAI DA LITERATURA DE CORDEL


 Hoje, 04 de março de 2017, fazem exatamente 99 anos que o poeta Leandro Gomes de Barros transportou-se para outro plano. Do mesmo modo que a sua vida, a morte de Leandro também é envolta em lendas e controvérsias. Sabe-se, seguramente, que a data foi 04 de março de 1918, pois isso consta em folhetos editados pelo seu genro Pedro Batista entre 1918 e 1921 e na sua certidão de óbito, encontrada num cartório do bairro de São José, no Recife-PE. A causa e o local exato é que são controversas, embora tenhamos cópia de sua certidão de óbito lavrada em um cartório no bairro de São José, no Recife, que traz à tona informações dignas de crédito. Ruth Terra, que entrevistou uma de suas filhas, afirma que Leandro morreu no Recife, na rua Passos da Pátria, número 35. No dia 07 de março o jornal A Província, de Recife, noticiou deste modo a morte do grande poeta:

"Aos primeiros minutos da manhã de anteontem, faleceu em sua residência, à Rua Passos da Pátria, nº 35, o poeta popular Leandro Gomes de Barros. Possuidor de grande inspiração poética, Leandro Gomes publicou grande número de histórias rimadas que tinham grande aceitação, não apenas no interior do estado como também nesta capital e em outros estados. Em seus livros de versos, embora não fossem confeccionados com a métrica e estilos exigidos pela arte, encontra-se a verdadeira poesia, cheia de sentimento e inspiração. À família do saudoso poeta levamos os nossos sentimentos."

É oportuno ler o que escreveu Permínio Ásfora, no Diário da Noite de Recife, em 13 de dezembro de 1949, em artigo intitulado “Crise no romanceiro popular”:

Trechos de sua vida são lembrados ainda hoje. Contam que já morava aqui no Recife quando um senhor de engenho, indignado com um morador, resolveu aplicar neste uma sova de palmatória. (...) Um dia o senhor de engenho é surpreendido por violenta punhalada vibrada pela mesma mão que levara seus bolos. O poeta Leandro aproveita o caso policial, transformando-o em folheto que era um libelo contra o senhor de engenho. Descreve em "O punhal e a palmatória", com calor e simpatia, a inesperada vindita. O chefe de polícia, enfurecido com a literatura de Leandro, manda metê-lo na cadeia. Apesar de folgazão, Leandro era homem de muita vergonha e de muito sentimento. E como naquele já distante ano de 1918 a cadeia constituía uma humilhação, à humilhação da cadeia sucumbiu o grande trovador popular.

Ásfora cita a seguir uma estrofe do dito folheto que afirma ser a primeira:

“Nós temos cinco governos
O primeiro, o Federal,
O segundo o do Estado,
O terceiro, o municipal,
O quarto é a palmatória
E o quinto o velho punhal”.

Ruth Terra(1), nas pesquisas de seu livro já mencionado, encontrou  o dito folheto “A palmatória e o punhal” no acervo dos Fundos Vila-Lobos e constatou que a primeira estrofe difere daquela citada por Permínio Ásfora:

“Desde que entrou a República
Que o nosso país vai mal
Pois o lençol da miséria
Cobriu o mundo em geral
Deixando a mão entregue
À palmatória e ao punhal”.



Ruth Terra teve o cuidado de verificar se a estrofe recolhida por Permínio Ásfora achava-se em outro trecho do referido folheto localizado nos Fundos Villa-Lobos, mas não a encontrou. Como o folheto localizado por ela não tem data, fica difícil saber se é a mesma edição apreendida pelo chefe de polícia de Recife em 1918 ou se a estrofe recolhida por Permínio Ásfora foi apenas retida na memória de algum fã do poeta e deturpada ao longo dos anos.
Outros pesquisadores afirmam que Leandro morreu vítima da influenza espanhola, uma gripe mortífera que assolou o Brasil no início do século passado. Egídio de Oliveira Lima(2), por sua vez, diz que Leandro morreu "de uma enfermidade que o havia atacado uns dez anos antes" (Lima, 1978: 156), e no seu ATESTADO DE ÓBITO consta como causa mortis ANEURISMA.
Após a morte de Leandro, em 1918, seu genro Pedro Batista (irmão de Chagas Batista e esposo de Rachel Aleixo de Barros), continuou editando a obra do sogro em Guarabira-PB, fazendo algumas revisões de linguagem. Na 3ª edição completa de O Cachorro dos Mortos, um dos maiores clássicos de Leandro, publicado em Guarabira-PB em 1919 (um ano após a sua morte), Pedro Batista colocou o seguinte aviso:

“Tendo falecido o poeta Leandro Gomes de Barros passou a me pertencer a propriedade material de toda a sua obra literária. Só a mim, pois, cabe o direito de reprodução dos folhetos do dito poeta, achando-me habilitado a agir dentro da lei contra quem cometer o crime de reprodução dos ditos folhetos.”
Ainda na contracapa do dito folheto, Pedro Batista dá nome aos “bois” responsáveis pela “pirataria”:

“Já achava-se este folheto em composição quando chegou ao meu conhecimento que em Belém do Pará, um indivíduo de nome Francisco Lopes e no Ceará um outro de nome Luiz da Costa Pinheiro, têm criminosamente feito imprimir e vender este e outros folhetos do poeta Leandro Gomes de Barros, sem a menor autorização de minha parte que sou o legítimo dono de toda a obra literária desse poeta. (...)”

Ora, bem pior fez João Martins de Athayde, que após adquirir por compra o espólio de Leandro, tentou usurpar-lhe a autoria suprimindo o seu nome da capa dos folhetos e alterando os acrósticos que Leandro utilizava no final dos poemas, a fim de confundir a identificação.  Essa prática condenável verifica-se em dezenas de obras reeditadas por Athayde. Vejam só o que aconteceu com a última estrofe  do folheto “A Força do Amor ou Alonso e Marina”, onde o acróstico LEANDRO  foi alterado para IEANJRO.

Folheto editado pelo autor:

Levemos isso em análise
Então vê-se aonde vai
A soberba é abatida
No abismo tudo cai,
Deus é grande e tem poder
Reduz ao pó qualquer ser
O poder d'Ele não cai.

Versão de João Martins de Athayde:

Isto fica como exemplo
Então vê-se  aonde vai
A soberba é abatida
No abismo tudo cai
Jesus é grande em poder
Reduz ao pó qualquer ser
O poder d'Ele que é pai.

A venda dos direitos autorais de Leandro Gomes de Barros, pela viúva do poeta, Dona Venustiniana Aleixo de Barros, a João Martins de Ataíde ocorreu em 1921. O pesquisador Sebastião Nunes Batista, que muito se empenhou pela restituição de autoria de Leandro e de outros poetas populares, informa como se deu essa transação, em artigo intitulado “O seu ao seu dono...” publicado na revista Encontro com o Folclore (Rio de Janeiro, 5 de abril de 1965):

“D. Vênus, como era chamada na intimidade, desentendera-se com o seu genro Pedro Batista, porque tendo este enviuvado de sua filha Rachel Aleixo de Barros, que faleceu de parto da pequena Djenane, não concordou em que a menina fosse para companhia da avó materna, e esta em represália autorizou João Martins de Athayde a editar parte da obra literária do grande poeta popular paraibano Leandro Gomes de Barros.”

Um dos filhos de Leandro, Esaú Eloy Barros de Lima, assinou juntamente com mãe o documento de venda da obra de seu pai ao poeta João Martins de Athayde, em abril de 1921. A venda foi efetuada no dia 13 e o documento foi registrado em cartório no dia 16 do mesmo mês.

O TEXTO INTEGRAL DO DOCUMENTO DE VENDA, CONFORME Sebastião N. Batista, (In Literatura Popular em Verso  Estudos, pág. 452 da segunda edição - Editora Itatiaia, 1986):

“CONTRATO DE VENDA DE PROPRIEDADE LITERÁRIA”

A abaixo assinada, viúva do poeta popular LEANDRO GOMES DE BARROS, tendo ficado com a propriedade exclusiva de todas as obras do referido poeta, declara pelo presente ter vendido ao Sr. JOÃO MARTINS DE ATAÍDE a mesma propriedade pela quantia de seiscentos mil réis (600$000), cuja importância me foi paga em moeda legal do país, pelo que poderá usar de todos os direitos que lhe são conferidos por lei, fazendo da mesma o uso que lhe convier.  Jaboatão, 13 de abril de 1921  (a) VENUSTINIANA EULÁLIA DE BARROS.  (a) JOÃO MARTINS DE ATAÍDE.  Cunha: - (a) Esaú Eloi de Barros Lima  (a) Aprígio José de Lázaro. Reconheço as firmas dos constantes e das suas testemunhas.  Recife, 16 de abril de 1921  em testemunho da verdade  (a) Tavares de Genésio Barreto.”

(Conforme cópia do original fornecida ao Prof. Mark Curran, em Recife, agosto de 1966, por um filho do poeta-editor João Martins de Ataíde).

[1] - Ruth Brito Lemos Terra - Memória de Lutas: Literatura de Folhetos no Nordeste  1893  1930, editora Global, 1983.
[2]  Egídio de Oliveira Lima, Folhetos de Cordel, Edição UFPB, 1978, pág. 156.



ENCONTRADA A CERTIDÃO
DE ÓBITO DE LEANDRO

Cristina da Nóbrega, seguindo pistas fornecidas pelo autor destas linhas, pesquisou nos cartórios do Bairro de São José, no Recife, e localizou o livro onde está assentada a CERTIDÃO DE ÓBITO do grande poeta. Algumas informações curiosas, prestadas por seu filho Esaú Eloy de Barros Lima (quem, por sinal, assina o documento), são bem reveladoras. Ele informa que seu pai tinha 58 anos de idade, e não 53, na data de seu falecimento, o que remete seu nascimento para 1860, ao invés de 1865, data divulgada oficialmente. Diz que Leandro era filho de José Gomes de Barros Lima e Adelaide Gomes de Barros (seu nome de solteira era Adelaide Xavier de Farias). Era comerciante, faleceu na rua Passos da Pátria, bairro de São José, às 9h30 da noite do dia 4 de março de 1918, tendo como causa mortis aneurisma. Nessa data, Rachel Aleixo de Barros Lima, a filha mais velha, tinha 24 anos, Esaú Eloy, o declarante, 17 anos, e as suas irmãs Julieta (na certidão está grafado erroneamente Juvanêta)[1] e Herodias eram também menores.
Após a morte de Leandro, seu genro Pedro Batista (irmão de Chagas Batista e esposo de Rachel Aleixo de Barros) continuou editando a obra do sogro em Guarabira (PB), fazendo algumas revisões de linguagem, entre 1918 e 1921.
Em 1921, após desentender-se com o genro, a viúva do poeta, Dona Venustiniana Aleixo de Barros, vendeu seu espólio literário a João Martins de Athayde. O pesquisador Sebastião Nunes Batista, que muito se empenhou pela restituição de autoria de Leandro e de outros poetas populares, informa como se deu essa transação, em artigo intitulado "O seu ao seu dono...", publicado na revista Encontro com o Folclore (Rio de Janeiro, 5 de abril de 1965):


D. Vênus, como era chamada na intimidade, desentendera-se com o seu genro Pedro Batista, porque tendo este enviuvado de sua filha Rachel Aleixo de Barros (que faleceu de parto da pequena Djenane, em junho de 1918), não concordou em que a menina fosse para companhia da avó materna, e esta em represália autorizou João Martins de Athayde a editar parte da obra literária do grande poeta popular paraibano Leandro Gomes de Barros.

[1] - Na certidão de batismo e no registro civil o nome da filha de Leandro é grafado Gilvaneta. Ela preferia, no entanto, ser chamada de Julieta.

[In Leandro Gomes de Barros - Vida e Obra. Arievaldo Vianna]