terça-feira, 9 de agosto de 2016

Lançamento em Quixeramobim


LIVRO 'SERTÃO EM DESENCANTO - I VOLUME DE MEMÓRIAS' É LANÇADO EM QUIXERAMOBIM


Arievaldo Vianna é membro da Aquiletras
(Academia  Quixeramobiense de Letras, Artes e Ciências)

Data: 11 de agosto de 2016
Realização: SESC de Quixeramobim.


Clique na imagem para ampliar.

FOTOS DO LANÇAMENTO

NO SESC DE QUIXERAMOBIM, DIA 11 DE AGOSTO (Quinta-Feira). Presença dos confrades João Bosco Fernandes e Bruno Paulino da Aquiletras e um ótimo público. Nossos agradecimentos à Leni Oliveira, diretora do SESC.


Com o escritor Bruno Paulino - Fotos de Tarcísio Filho.




Tivemos um ótimo público, no SESC de QUIXERAMOBIM-CE.



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

AGOSTO, MÊS DO FOLCLORE


Cabeça de cuia - lenda do folclore piauiense


Texto: Marco Haurélio
Ilustrações:  Arievaldo Vianna e Jô Oliveira


Folclore e identidade

Folclore não sai de moda.
É catira, cururu,
É frevo, samba-de-roda,
Baião e maracatu.
São noites mal-assombradas,
São aboios e toadas,
É lamparina e pilão.
É visagem e mau agouro,
É gibão, chapéu de couro
E debulha de feijão.
(Moreira de Acopiara, cordelista cearense)



 Ilustração: Jô Oliveira

A palavra folclore (em inglês folk-lore) foi empregada pela primeira vez em 22 de agosto de 1846. O arqueólogo inglês Willians Johns Thoms, em artigo endereçado à revista The Atheneum, assinado sob o pseudônimo Ambrose Merton, foi o pioneiro. O termo abrangia o que Thoms entendia por “antiguidades populares”: contos, lendas, provérbios, mitos, romances, crenças, rifões superstições etc. Nesse artigo, nota-se a preocupação com o desaparecimento das tradições populares face à modernização dos costumes. A mesma apreensão já havia levado dois filólogos alemães, os irmãos Jakob e Wilhelm Grimm, a coletarem histórias e lendas do povo de seu país, reunidas posteriormente no Kinder- und Hausmärchen (Contos da criança e do lar, 1812), a mais famosa coletânea de contos populares já feita.

No Brasil, a partir dos pioneiros Celso de Magalhães (1849-1879), Couto de Magalhães (1836-1898) e Silvio Romero (1851-1914), pesquisadores das mais diversas áreas vêm dedicando tempo e envidando esforços na tentativa de entender as manifestações da cultura espontânea. Com Cantos populares do Brasil e Contos populares do Brasil, o sergipano Silvio Romero deu o impulso necessário à pesquisa do folclore, embora seu trabalho se detivesse mais na recolha de modalidades da literatura oral do que no estudo do material. A publicação do livro O folclore, por João Ribeiro, a partir de conferências realizadas na Biblioteca Nacional em 1913, é o marco inicial dos estudos sistemáticos do folclore brasileiro. 


Bumba meu boi
O folclore, além da literatura oral, abrange as festas religiosas e profanas, os folguedos, as brincadeiras infantis, as danças tradicionais, o vestuário e a culinária. No rol entram, também, as superstições e os costumes. Às vezes, se fundem texto, dança e gestual. É o caso do bumba meu boi, que, além de folguedo, é um auto popular bastante difundido, ligado ao ciclo de festas natalinas. Sua popularidade deve-se à importância que teve a pecuária no processo de colonização do País. Confunde-se com o que estudiosos classificam como ciclo do gado, a ponto de apresentar familiaridades com o conto popular O vaqueiro que não mentia. No enredo deste, a honestidade de um vaqueiro é posta à prova quando uma moça bonita o instiga a matar o boi favorito do patrão, pois deseja comer um pedaço: língua, fígado ou coração.

A origem do bumba-meu-boi remonta à mitologia da Grécia Antiga: Dionísio Zagreu, filho de Zeus e Perséfone, por instigação de Hera, foi morto, despedaçado e devorado pelos titãs. Zagreu estava, no momento de sua morte, metamorfoseado em touro. O seu coração, no entanto, foi recolhido por Atena e, devorado por Sêmele, deu origem ao segundo Dionísio, o deus do vinho. O despedaçamento ritual sobreviveu no folguedo. No Nordeste brasileiro, região de maior fixação do tema, os pedaços do boi geralmente são distribuídos entre os conhecidos de quem veste a armação representando o animal.

(...)


Lendas e mitos brasileiros - desenhos de Arievaldo Vianna
 para livro inédito de Moreira de Acopiara


Folclore e educação

As escolas geralmente trabalham o tema apenas em agosto que, institucionalmente, é o mês do folclore. No entanto, a cultura popular está mais presente em nossas vidas do que supomos. Inconscientemente, ao fazermos um gesto de saudação, podemos estar repetindo um exemplo surgido há milênios. O folclore é, segundo o grande estudioso do tema no Brasil, Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), “o milênio na contemporaneidade”.

Sem abrir mão da programação de agosto, outras atividades podem ser sugeridas. Desde a recolha de contos populares, lendas e adivinhas, até a encenação de autos tradicionais, a escola tem um papel fundamental na formação cultural dos seus alunos que fortalecerá, com a noção da consciência identitária, os alicerces da cidadania. As lendas de origem de uma comunidade, por exemplo, têm muito a dizer ao nosso povo. É o caso da cidade de Paratinga, na Bahia, cujo surgimento está diretamente ligado à religiosidade popular.

Localizada às margens do rio São Francisco, Paratinga já se chamou Santo Antônio do Urubu de Cima. Isto em 1718, quando deixou de ser arraial, passando a freguesia. A razão do nome incomum: uma imagem do santo português teria sido encontrada por um caçador num tronco de árvore. No galho “de cima”, a ave, de asas abertas, protegia o santo do calor do sol. No local, foi construída a capela onde o santo era venerado. A imagem teria sido deslocada para o santuário de Bom Jesus da Lapa – uma gruta transformada em igreja –, mas sempre retornava para o seu centro de devoção. Suas pegadas ficavam impressas na areia.

Lendas como a descrita acima podem ser recuperadas da memória popular a partir de um projeto pedagógico que valorize as manifestações tradicionais. O mesmo pode ser pensado em relação às quadras populares. Abaixo, alguns exemplos desta singela manifestação poética:

Amarrei o meu cavalo,
Amarrei às nove horas.
Esperando o meu benzinho,
Meu benzinho, até agora...

Soltei meu cavalo n’água,
Ele n’água se perdeu.
Nesse mundo não existe
Amor puro igual o meu.

Botei meu cavalo n’água
Só pra vê-lo ir nadando.
Se quiser ver meu amor,
Olhe só quem vem cantando.

Esta, que evoca o ciclo natalino, é de rara beleza:

Nossa Senhora com dor,
São José foi buscar luz.
São José não é chegado,
Nasceu nosso Bom Jesus.

Entendamos, finalmente, o folclore dentro de um processo dinâmico: em constante evolução. A soma de todas as manifestações tradicionais, de nossas crenças mais arraigadas, vivas e cotidianas, é uma das possíveis definições para folclore.

E quem souber mais histórias que conte outra!...
Nota: este artigo foi publicado originalmente na revista Páginas Abertas (Paulus) em agosto de 2010.

Íntegra em: http://marcohaurelio.blogspot.com/2011/08/folclore-e-identidade.html


 Oficina do projeto ACORDA CORDEL NA SALA DE AULA, em Caridade-CE

ATENÇÃO!

No mês do FOLCLORE, contrate uma palestra ou oficina do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula. Nosso principal objetivo não é formar novos poetas. É formar bons leitores e colocar alunos e professores em contato direto com esse universo encantado do cordel. Contato: acordacordel@hotmail.com


Para saber mais, acesse este link: http://acordacordel.blogspot.com/2011/04/oficinas-de-cordel.html



Oficina de Cordel em Caxias do Sul-RS

terça-feira, 2 de agosto de 2016

LUIZ GONZAGA E LAMPIÃO


Relembranças do REI DO BAIÃO e do GOVERNADOR DO SERTÃO

28 de julho é registrado na história como o dia em que morreu Lampião e mais uma dezena de companheiros na chacina da Grota de Angicos – SERGIPE. 02 de agosto de 2016 marca os 27 anos de encantamento de Luiz Gonzaga do Nascimento – o eterno REI DO BAIÃO. Afinal de contas, que foi rei nunca perde a majestade, diz o velho aforismo popular. Segue uma homenagem do blog MALA DE ROMANCES:


Ilustração: RAFAEL LIMAVERDE (Do livro O EMBAIXADOR DO SERTÃO, de Arievaldo Viana)


A figura lendária de Lampião fascinava Luiz Gonzaga desde a infância. Em meados da década de 1920, quando o Rei do Cangaço passou com seu bando pela Serra do Araripe rumo a Juazeiro do Norte, o futuro Rei do Baião desejou ardentemente conhecer o temível bandoleiro e, quem sabe, tocar algumas músicas para a cabroeira dançar. O velho Januário, mais sensato e comedido, resolveu ouvir os apelos de Santana e foi se refugiar no mato com a família, com medo dos cangaceiros. Outras famílias fizeram o mesmo.
Se estabeleceram sob uns pés de oiticica, fizeram um foguinho de trempe para cozinhar o feijão e esquentar o café, enquanto as coisas se acalmassem. O que aconteceu a seguir, eu descrevo em cordel, trechos de um livro que acabo de lançar pela coleção “Do Nordeste para o mundo”, coordenada por Arlene Holanda, intitulado “Luiz Gonzaga, o embaixador do sertão”. A obra, vencedora de um prêmio literário promovido pela Secult, acaba de ser lançada pela Editora Íris.



O EMBAIXADOR DO SERTÃO (trechos)

Certa feita Lampião
Passou lá no povoado
O povo da região
Ficou muito apavorado,
Seguia pra Juazeiro
O cangaceiro afamado.


As famílias se esconderam
Com medo de Lampião
Januário e sua gente
Arrumaram o matulão
E foram se esconder
Sob um pé de “sombrião”.


Passados então dois dias
O Gonzaga disse assim
Eu vou lá no povoado
Ver se a coisa está ruim
Eu vou e volto escondido
Podem confiar em mim.


Nisto o velho Januário
Que admirava a coragem
Lhe disse: – Vá com cuidado
Pela margem da rodagem
Observe o movimento
E faça breve viagem.


Luiz foi, observou,
Lampião tinha saído,
Ele que era travesso
Um molequinho enxerido
Voltou em grande carreira
Fazendo um grande alarido:


- Corre gente! Corre tudo
Que Lampião vem chegando!!!
Com mais de cinqüenta cabras
Já vem se aproximando!
Foi enorme a correria
E a meninada chorando.


A rir dessa confusão
Gonzaga então começou;
Mas o velho Januário
Daquilo desconfiou
E devido a brincadeira
Um castigo ele levou.


Foi uma surra e tanto, conforme o próprio Gonzaga declarou mais tarde ao escritor Sinval Sá, autor de “O sanfoneiro do Riacho da Brígida”, a primeira biografia do ‘Lua’, publicada em Fortaleza em 1966.


LAMPIÃO, por Arievaldo Vianna


O CANGAÇO DITA A MODA – A roupa dos cangaceiros, aqueles chapéus de couro vistosos, cheios de medalhas e penduricalhos era o que mais fascinava o menino Gonzaga. Por isso, depois de consolidar sua música e projetar-se em todo o Brasil, Luiz Gonzaga cismou de se apresentar na Rádio Nacional vestido de cangaceiro, o que lhe valeu uma séria advertência do diretor Floriano Faissal. Advertência não, proibição sumária.
Mas Gonzaga era teimoso e continuou usando o seu chapéu de cangaceiro nas capas dos discos, nas fotos promocionais e em tudo que era show onde se apresentava. Sua persistência prevaleceu e o figurino incorporado por ele passou a ser imitado por quase todos os cantores do gênero que surgiram nas décadas de 1950 a 1970.

* * *

VER POSTAGEM COMPLETA NA COLUNA
MALA DA COBRA, no jornal da BESTA FUBANA:


http://www.luizberto.com/coluna/mala-da-cobra-arievaldo-vianna

domingo, 31 de julho de 2016

BRINCADEIRAS DE ANTIGAMENTE


Hoje, 31 de julho, último dia das férias escolares, pus-me a pensar no que eram as férias no meu tempo de menino e o que representam para os meninos de hoje em dia. Nesse mergulho profundo num mar de lembranças, encontrei alguns folguedos que inventava para matar o tempo e divertir-me com os meus companheiros de infância...

UM MUNDO DE NOVIDADES
(FÉRIAS ESCOLARES)

Com o casamento das tias Maria do Socorro e Augediva, minhas férias escolares se revezavam entre o Alferes e o Iguaçu, comunidades rurais do município de Canindé. Nesse tempo, o cantor cearense Messias Holanda havia emplacado um sucesso que tocava dezenas de vezes por dia em todas as emissoras de rádio do Ceará. Nesse tempo as chamadas músicas de duplo sentido ainda eram bem inocentes:

“Vamos lá pra ver, o pagode vai ser bom,
Todo mundo no (NU), casamento da Maria...”

Na minha mente fantasiosa de criança, a música havia sido composta, especialmente para o casamento da minha tia, onde os convidados dançariam todos sem roupas. Quando passei a morar em Maracanaú demorava meses para retornar de férias ao Ouro Preto, por minha avó Alzira não queria me liberar para ir passar uns dias na casa das minhas tias. Mas elas se armavam de toda sorte de argumentos, inclusive um bastante curioso:
— Mamãe, eu vou levar esse menino. Ele está dando muito trabalho. É muito danado, muito impossível, vai passar uns quinze dias lá em casa para lhe dar descanso.
Ora, ora, meus leitores. Que conversa mais furada... Quem é que deseja a companhia de um menino “danado” e “arteiro”? Vovó retrucava:
— Ora mais essa, ah, bom basta! Deixem o bichinho, ele não me dá trabalho nenhum.
Sei que no final das contas acabavam entrando num acordo e nas férias de fim de ano, que duravam, às vezes, mais de dois meses seguidos, eu me revezava entre o Ouro Preto, a Cacimbinha, o Iguaçu e o Alferes, pequena comunidade agregada à Vila Campos. É que seu antigo proprietário, José Eustaquilino de Araújo, possuía essa patente da extinta Guarda Nacional e o lugar aonde residia passou a ser designado desse modo. Certa feita minha tia Maria, que eu chamava Didi, estava escrevendo uma carta para a irmã Augediva, da qual eu seria o portador, quando o Abdísio, seu marido, passou a vista pelo papel onde se lia em letras garrafais: Vila Campos, tanto de tanto de mil novecentos e tanto... Ele não se conteve e protestou, sungando as calças, como de costume:
— Campos não! Alferes. Pode rasgar essa daí e fazer outra. Campos é da Lagoa para lá!
E não sossegou enquanto ela não mudou o cabeçalho da missiva ferrando a patente do seu ancestral na introdução do bilhete.




BUMBA-MEU-BOI: CARETAS E PAPANGUS

“Essa casa está bem feita
Por dentro, por fora não,
Por dentro cravos e rosas
E por fora manjericão.”
(Saudação do Reisado)

A década de 1970 foi um tempo de grandes descobertas para a minha curiosidade infantil. Pela primeira vez eu vi a encenação de um bumba-meu-boi ou reisado, como se diz por ali. O grupo de “caretas” do Iguaçu (distrito de Canindé-CE) e os Bastiões, da Serrinha (Quixeramobim-CE) eram o que havia de melhor na região. Um boi bonito e vistoso, todo coberto de chita colorida, era o centro da trama. E tinha também a Ema, o Babau, a Burrinha e o Jaraguá, esse último feito da queixada de um jumento, que batia os dentes feito uma matraca. A velha dos papangus, que em alguns lugares tem o nome de Catirina, desejava comer a língua do pobre bovino e o marido acabava matando-o, para satisfazer-lhe o desejo. O negócio terminava numa confusão simulada, com direito a glosas, cantigas, “relaxos” e endechas, culminando na ressurreição do boi, que concluía o ato dançando o “Baião Vermêi” e dando chifradas nos meninos mais afoitos. A velha também nos perseguia, com uma enorme bunda postiça por baixo do vestido e um chiqueirador na mão, para amedrontar-nos com mais ênfase.
Antes disso, dera-se um fato curioso. Eu voltava da escola certo dia quando nosso primo José Rodrigues de Sousa, o Zé Miguel, me chamou muito animado e perguntou:
— Arievaldo, você já viu o Papai Noel?
— Vi não, Zé Miguel. Ano passado apareceu um brinquedo debaixo da minha rede e disseram ter sido o Papai Noel quem botou, mas eu desconfio que foi mesmo a vovó ou alguma de minhas tias.
— Que nada, rapaz! Papai Noel existe! Está aqui em casa passando uns dias. Quer ver?
A Marta, minha prima, andava comigo e também ficou curiosa para ver o “bom velhinho”. O Chico Bastião, devidamente combinado com o Zé Miguel, começou a cantar velhas cantigas natalinas invocando o Papai Noel, enquanto o Zé Miguel nos preparava uma surpresa. Entrou apressadamente para o quarto, vestiu uma velha roupa de estopa, botou uma máscara horrenda de papangu e apareceu no alpendre de supetão, trajando essa estranha indumentária e sapateando em nossa direção. Nem é preciso dizer o que se seguiu. Arrancamos em desabalada carreira, botando o coração pela boca, com medo daquela aparição. Entretanto deu-me na veneta voltar discretamente por dentro do mato e verificar a coisa de perto, para contar de certo. Ora, não deu outra. Presenciamos o Zé Miguel às gargalhadas, juntamente com seu cúmplice, despindo a máscara e a estranha indumentária. Criei coragem e voltei para desmascará-lo, dizendo que já sabia de tudo, desde o começo.
— E por que foi que correram?
— Corremos para ver o Papai Noel achando graça!
Eu tinha resposta para tudo, nessas situações. Mas, voltemos aos “caretas” do Iguaçu. Eles diziam que papangus eram os meninos da plateia. Os brincantes eram caretas. No dia seguinte, a criançada empolgada com esse folguedo não falava noutra coisa. Os meninos do Antônio Tobias e outros garotos da localidade entenderam de fazer um reisado mirim. Tiramos vergônteas de mofumbo, para fazer a armação do boi, arranjamos um velho lençol de chita para cobri-lo e a cara do bicho foi pintada num grosso papelão. Faltava agora aprender as cantigas do boi. Foi quando alguém nos deu a ideia de visitar o velho José João, que morava nos arredores. O bom ancião nos atendeu prontamente e repetiu dezenas de quadrinhas até que nós decoramos a maior parte e nos munimos de um estoque de glosas para a encenação do folguedo. Lembro-me perfeitamente dessas duas:

“Eu me chamo Chico Torto
Revesso, quebra-machado,
Cavo cacimba no seco
Depressa dá no molhado.

Só não quero que me mandem
Na rua, comprar fiado,
Que fiado me dá pena
E pena me dá cuidado.”

Outra que jamais saiu da minha lembrança é a cantiga do JARAGUÁ:

Lá vem, lá vem, lá se vem o Jaraguá
O bichinho é bonitinho, ele sabe vadiar.

Venha cá meu Jaraguá (meu Jaraguá)
Para o povo não mangar (meu Jaraguá)
Ai, meia volta Jaraguá (meu Jaraguá)
Quero ver você brincar (meu Jaraguá).

Impossível não lembrar também desses versos da BURRINHA:

A burrinha do meu amo
Come tudo que lhe dão
Só não come carne velha
Sexta-feira da paixão.

Essa quadra, sugestiva e licenciosa, era evitada nos terreiros de família e dita somente em locais onde a brincadeira não corria o risco de sofrer censura:

A burrinha do meu amo
Tem um buraco no cu
Foi um rato que roeu
Pensando que era beiju.

A apresentação do grupo mirim foi no terreiro do Toinho Tobias, cunhado de minha tia Augediva. Sucesso total. Depois fiz uma reprise fora de época com os primos do Ouro Preto, mesmo sujeitos a sermos crismados com a pecha infamante de “Papangu de Quaresma”. Isso sim, é que era infância. Muito melhor que andar apalermado no meio da rua, caçando esses tais de Pokemón, como fazem as crianças de hoje em dia.

Nas férias de julho, motivado pela leitura das revistas do Zorro, do Tex e de Jerônimo, O Herói do Sertão, resolvemos que era tempo de brincar de mocinho e bandido. Eu sempre queria ser o índio e fabricava as minhas armas da seguinte maneira. Por trás da casa da minha tia havia uns postes abandonados com uma antiga fiação de cobre que não tinha mais utilidade. Eu retirava pedaços desse arame e fabricava os arcos que disparavam setas de cipó, sem ponta, para não correr o risco de ferir alguém. Mesmo assim o brinquedo era perigoso e me aconselharam a botar bolões de cera de abelha na ponta das setas para não acontecer de furar o olho de um companheiro. A meninada em peso aderiu. Passamos mais de uma semana nessa brincadeira, até que alguns mais entusiasmados passaram a flechar as galinhas e os adultos começaram a implicar, destruindo ou escondendo o rústico armamento.

Arievaldo Vianna

(De "O livro das crônicas - Volume II de Memórias", ainda inédito)

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sexta-feira, 22 de julho de 2016

UM POETA ANARQUISTA


OS 134 ANOS DE NASCIMENTO DO POETA JOSÉ OITICICA E O HARPAGÃO MODERNO

A campanha abolicionista no Brasil fez brilhar o estro de poetas como Castro Alves e Tobias Barreto, dois nordestinos de espírito libertário que fizeram da sua arte um instrumento de luta contra a escravidão. Após o 13 de maio de 1888, quando a Princesa Isabel promulgou a lei que anistiava os cativos, alguns poetas hoje esquecidos voltaram os seus ataques contra o pior dos opressores, o CAPITALISMO, elegendo o burguês como o mais desprezível dos opressores de homens pobres e supostamente livres. Não é à toa, portanto, que os estatutos da famosa Padaria Espiritual, o movimento literário mais expressivo do Ceará, tenham demonstrado ódio e desprezo pela burguesia.
Um desses poetas libertários que se projetaram após a campanha abolicionista é José Oiticica, nascido na data de hoje (22 de julho de 1882), em Oliveira-MG. Esse poeta foi brilhantemente retratado por Humberto de Campos em seu livro “Carvalhos e Roseiras”, relançado em 2009 pela editora Café & Lápis, de São Luís-MA. Referindo-se ao homem branco vítima desse sistema opressor diz o ilustre escritor maranhense:

“O senhor deste pária já não é, entretanto, o rei, o Estado, a autoridade política; mas o burguês, o capitalista, o Harpagão moderno, o polvo de vinte tentáculos, o soberano incontrastável, em suma, cujo cetro é guardado em silêncio, mas seguramente, em grandes cofres de ferro.”

Ora, nos “bons tempos” de Humberto de Campos e José Oiticica, homens de letras ainda ocupavam cargos de destaque na política. Vide o caso de José de Alencar, que foi ministro de Sua Majestade o Imperador Pedro II, Joaquim Nabuco, Machado de Assis e até mesmo Olavo Bilac e Paula Ney, que ocuparam cargos influentes depois da proclamação da República. Tivemos também o escritor José Américo de Almeida, autor do romance A Bagaceira, como ministro do primeiro governo de Getúlio Vargas. Hoje os representantes da plutocracia não se contentam mais em mandar em surdina, nos bastidores da política e passam a ocupar todas as esferas de poder com uma ganância nunca vista. Os homens de letras, com raríssimas exceções fazem parte de uma escória tratada com inexcedível desprezo pelos que mandam na política atual.

Analisando o soneto A ANARQUIA, um dos poemas mais conhecidos de José Oiticica, diz Humberto de Campos:

“O ideal revolucionário do Sr. José Oiticica é dos mais audaciosos que efervescem no momento. Ele já não se contenta com as modalidades mais arrojadas do socialismo europeu: é anarquista resoluto, firme, extremado, e prega, resolutamente, a anarquia.”


No soneto A Anarquia o então jovem poeta Oiticica expressou suas opiniões sobre esta filosofia política e a perseguição a qual sofriam muitos de seus entusiastas:






Para a anarquia vai a humanidade
Que da anarquia a humanidade vem!
Vide como esse ideal do acordo invade
As classes todas pelo mundo além!

Que importa que a fração dos ricos brade
Vendo que a antiga lei não se mantém?
Hão de ruir as muralhas da Cidade,
Que não há fortalezas contra o bem

Façam da ação dos subversivos crime,'
Persigam, matem, zombem... tudo em vão...
A ideia, perseguida, é mais sublime,

Pois nos rude ataques à opressão,
A cada herói que morra ou desanime
Dezenas de outros bravos surgirão.



SOBRE JOSÉ OITICICA:
Nascimento: 22 de julho de 1882 -Oliveira, Minas Gerais (Brasil)
Morte: 30 de junho de 1957 (74 anos) - Rio de Janeiro (Brasil)

Ocupação: Professor, Filólogo e Escritor

quarta-feira, 20 de julho de 2016

VAQUEIROS


Ilustração de Arievaldo Vianna (baseado em foto de Francisco Estrela)